| O Estado da expansão
Evandro Bittencourt Formado em engenharia civil, André Luiz Baptista Lins Rocha é presidente-executivo dos sindicatos da Indústria de Fabricação de Álcool e Açúcar do Estado de Goiás (Sifaeg/Sifaçúcar); foi presidente da Companhia Energética de Goiás (Celg) e diretor comercial da A.M. Engenharia e Construção Ltda. Atua como coordenador do GT de Bioeletricidade da Câmara Setorial da Cana-de-Açúcar do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa); preside o Conselho Temático de Agronegócio da Federação da Indústria do Estado de Goiás (FIEG); foi diretor do Sindicato da Indústria da Construção do Estado de Goiás (Sinduscon), membro dos conselhos temáticos de Comércio Exterior e de Infra-Estrutura da Fieg e é integrante do Fórum Sucroenergético Nacional. Desenvolveu, ainda, diversas atividades na área de engenharia e na administração pública.
Que avaliação o senhor faz da atividade sucroenergética em Goiás, considerando o expressivo número de novas usinas que entraram em operação no Estado nos últimos anos? O setor tem crescido muito. Em 1999 tínhamos 12 usinas e hoje já temos 32. Devemos inaugurar, em breve, a 33ª e temos outras duas praticamente prontas, que também podem ser inauguradas ainda este ano ou já na próxima safra. Isso significa que, em pouco mais de 10 anos, crescemos três vezes em quantidade de usinas. Hoje o setor emprega mais de 60 mil pessoas diretamente, somente no Estado de Goiás. As usinas estão localizadas no interior do Estado. Desse modo, nós seguramos a migração para os grande centros urbanos e levamos renda para os pequenos municípios.
Qual o impacto da chegada de uma usina sucroenergética na economia dessas pequenas cidades? O panorama da cidade muda, pela arrecadação que a usina vai proporcionar e pela movimentação de toda a cadeia produtiva, desde a abertura de oficinas, lojas, revenda de tratores, hotéis, restaurantes e outros, beneficiando toda a região.
Quantas usinas entraram em operação em Goiás este ano? Este ano foram quatro, a Caçu, no município de Vicentinópolis, a Porto das Águas, em Chapadão do Céu, a Floresta em Santo Antônio da Barra e a ETH Rio Claro, no município de Caçu. Temos mais uma que vai ser inaugurada esse ano, a Cosan, em Jataí e outras duas que estão praticamente prontas, a Central Energética de Morrinhos, na cidade de mesmo nome, e a Brenco, unidade Morro Vermelho, no município de Mineiros.
O que tem determinado essa grande quantidade de investimentos em Goiás? O setor sucroenergético recebeu condições atrativas para poder vir. Além disso, a safra no Nordeste está praticamente estável, não tem crescido, pois há dificuldade de expansão, devido à topografia e ao clima, que não é favorável em algumas regiões. O início da cana-de-açúcar se deu na Região Nordeste, que já foi maior produtora do País, mas hoje não responde por mais do que 13% da produção nacional. Em São Paulo, que responde por quase 60% da produção, a cana já ocupa 20% da área do Estado, ou seja, eles têm uma dificuldade de expansão. Em Goiás, a cultura da cana ocupa 1,15% da área do Estado, o que significa um potencial para crescer em termos de área disponível. Essa área é praticamente toda em pastagens, boa parte degradada, o que possibilita a condição de expandir sem prejudicar a produção de grãos e outros alimentos. Além disso, temos uma topografia favorável, terrenos planos que são adequados para a mecanização da colheita, uma necessidade do setor. Em função disso e de programas de incentivo, como o Fomentar e o Produzir, o Estado conseguiu atrair essas empresas, uma compensação que proporciona competitividade ao setor.
Já é possível mensurar o impacto da crise financeira mundial no setor sucroenergético nacional e, ainda, dizer que o pior realmente já passou? A primeira maneira que ela nos afetou foi em relação ao crédito. Os fundos que estavam investindo no setor interromperam esse fluxo. Alguns adiaram e outros cancelaram esses investimentos. A contração do crédito pegou o setor no contrapé, num momento em que ele estava muito alavancado, em plena atividade de expansão. Nós não tivemos uma crise de demanda, como ocorreu em alguns setores. Simplesmente faltou dinheiro para o nosso dia a dia. Faltaram recursos para financiar a safra. Ela dura seis a sete meses e precisamos vender ao longo de 1 ano. Por isso precisamos de recursos para financiar os estoques de passagem. Empresas que estavam planejando expansão, seja ampliando as unidades existentes ou investindo em mecanização de colheita, cogeração ou em outras unidades foram muito afetadas. Os créditos disponíveis ficaram muito caros e isso levou a se postergar investimentos e ao atraso na inauguração de usinas e criou algumas dificuldades com fornecedores de equipamentos e parceiros agrícolas. E como está o acesso ao crédito, atualmente? O acesso ao crédito está melhor, mas ainda não se pode dizer que foi resolvido. Por outro lado nós já temos esse ano um cenário melhor para o açúcar. Isso deu um novo alento para aquelas unidades que fabricam esse produto. Em Goiás, por exemplo, são 12 unidades, ao passo que 20 fazem, exclusivamente, o etanol.
O mercado de açúcar tem sido um alento para a indústria nacional. Quais as perspectivas de crescimento das exportações de etanol? Pelo menos até o ano que vem teremos um bom cenário para o açúcar, em função da quebra de safra da Índia e de o Brasil ter voltado à condição de ser o principal player do mercado de açúcar. Ao mesmo passo temos, no ano que vem, a possibilidade de os Estados Unidos flexibilizarem as taxas para a importação do etanol à base de cana-de-açúcar. Nós tivemos algumas vitórias importantes: os Estados Unidos já consideram de segunda geração o nosso etanol, em razão da baixa emissão de CO2 e do ganho energético. A diretriz do Estado da Califórnia também é importante, porque requer rapidez na oferta de um etanol com melhores condições de produção de energia. Como o milho não dá conta de atender a essas solicitações e, ao mesmo tempo, as pesquisas com etanol celulósico ainda não estão prontas, nós temos essa janela.
E quanto aos mercados europeu e interno? Teremos novas oportunidades no mercado europeu, pois há uma nova diretriz europeia que começa a partir do próximo ano. Também temos outros mercados sendo abertos, a exemplo do mexicano, no Caribe e na própria Ásia. Temos um potencial externo que, acreditamos, será cada vez mais consolidado nos próximos 5 anos e, por outro lado, estamos tendo o crescimento do mercado interno, devido ao aumento da frota flex, que já representa 30% da frota nacional. Hoje, 53% do combustível consumido no Brasil já é o etanol, somando o anidro e o hidratado, ou seja, no Brasil a gasolina é que o combustível alternativo. E há uma previsão para, em 2012, a frota flex chegar a 50% e, em 2020, 75%, momento em deveremos ter cerca de 86% do mercado doméstico de consumo de etanol. Além disso, temos outras perspectivas, como o desenvolvimento de motores para o consumo de etanol em máquinas, tratores e ônibus (já disponíveis em São Paulo e na Suécia). A Prefeitura de São Paulo aprovou uma lei que prevê aumento de 10% ao ano do uso de biocombustíveis em sua frota de ônibus. Esperamos que esse exemplo seja seguido por outras cidades e,com isso, a gente possa, por meio do etanol, atender a uma nova demanda que está se criando com esses veículos pesados.
Como aconteceu, em Goiás, a adesão ao Protocolo Trabalhista? Essa iniciativa já mostra um amadurecimento dos empresários do setor, pois é o primeiro a se reunir com o governo e os trabalhadores para fazer esse compromisso nacional e está servindo de modelo para outros setores da economia. O setor sucroenergético brasileiro está maduro e quer, cada vez mais, buscar melhores condições de trabalho para os seus colaboradores, tanto que tivemos uma adesão de mais de 75% num primeiro momento. Hoje a adesão está próxima de 340 usinas, o que equivale a mais de 85% das empresas, que são responsáveis por mais de 90% da produção de bioeletricidade, de açúcar e etanol no Brasil.
Quantas unidades aderiram em Goiás? Aderiram 43 usinas, tanto as que já estão instaladas quanto as que estão em implantação, mas já têm o cultivo da cana-de-açúcar. Em números absolutos foi o segundo Estado em adesão, só perdendo para São Paulo, o que mostra a nossa consciência. Nós temos feito diversas reuniões para tratarmos dessa implantação e das auditorias do termo de compromisso nacional. Nos próximos dias vamos fazer um encontro com os fornecedores de cana e com os parceiros agrícolas para levarmos para eles a importância compromisso e, logicamente, buscarmos também a adesão deles que, temos a certeza, também serão parceiros nesse processo.
Qual é o nível de mecanização nas lavouras de cana no Estado de Goiás e como o setor tem enfrentado o desafio de requalificar os trabalhadores que fazem o corte manual? As novas unidades já estão começando com 100% de colheita da cana crua e, ao mesmo tempo, várias outras unidades já têm um porcentual bastante adiantado de colheita mecanizada. O índice de mecanização da colheita goiana foi de 48% na safra 2008/2009. Este ano, nós teremos um aumento da cana colhida mecanicamente, podendo chegar a números próximos de 60%, conforme o andamento da safra. Nós temos uma massa muito grande de pessoas que trabalham hoje no corte manual da cana e precisamos requalificá-los para que alguns possam ser aproveitados como operadores de máquinas e em outros postos de trabalho, seja na indústria ou na própria área agrícola. Temos de ver também a responsabilidade do governo federal, por meio do Ministério do Trabalho e Emprego, dos governos estaduais, por meio das secretarias de trabalho e também das indústrias, por meio do Senar e do Senai, para poder trabalhar a quatro mãos, inclusive com os próprios trabalhadores envolvidos, para tratar desse problema. As indústrias já estão fazendo essas qualificações ? Sim, isso tem isso feito de duas maneiras. Várias de nossas associadas desenvolvem projetos de educação, de alfabetização e de melhoria do grau de escolaridade, o que já é um passo fundamental. Além disso, elas já mantêm parcerias com o Senar e com o Senai no sentido de oferecer cursos, não só para os operadores de colheitadeiras, mecânicos, etc, mas também para aqueles trabalhadores que podem ser aproveitados nas indústrias. Agora há também um trabalho que faz parte desse termo de compromisso nacional, pois um dos pontos desse compromisso é justamente as políticas públicas para o setor e, dentro disso, a principal delas é utilizar recursos do Planseq (Plano Setorial de Qualificação e Inserção Profissional) e do FAT, justamente para podermos trabalhar essa qualificação e recolocação dos trabalhadores, em alguns casos, inclusive, com a participação de prefeituras participando do processo.
Qual é a realidade da produção de cana, açúcar e etanol, atualmente, em Goiás. A safra deve chegar a quanto? A safra, com certeza, será superior a 37 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, mas é preciso considerar o rendimento industrial, pois a cana processada está produzindo menos. Estamos com a ATR três pontos menor que a média do ano passado, o que acontece em todo o Centro-Sul. Na produção de açúcar o crescimento deve ser superior a 30%, cerca de 1,3 milhão de toneladas de açúcar e alguma coisa próxima a 2 bilhões de litros de etanol. Na safra passada produzimos 954 mil toneladas de açúcar e em torno de 1,7 bilhão de litros de etanol. E estamos tendo um crescimento, mas precisaremos esperar mais alguns dias para termos os números finais.
Qual é o potencial do setor sucroenergético para cogeração de energia? Em nível nacional temos um potencial de geração equivalente ao de uma Itaipu. São mais de 14 mil MW, aproveitando 70% da palha e 75% do bagaço. Em Goiás, se novos projetos forem implantados no Estado, temos condições de cogerar em torno de 3 mil megawats até 2013, sendo que um terço desse total seria para consumo interno e 2 mil megawats para venda, tanto no mercado interno quanto no mercado spot. Para se ter uma ideia, o consumo do sistema das Centrais Elétricas de Goiás, atualmente, é de 700 mil megawats, ou seja, temos condições de gerar mais do que consumimos.
Qual é a atual situação tecnológica das usinas para a produção da bioletricidade? Temos duas situações: a das usinas antigas, que têm caldeiras insuficientes no que diz respeito à produção de vapor e energia, justamente porque elas foram concebidas somente para suprir o consumo próprio. Existe um projeto para estimular essas indústrias a trocarem caldeiras e geradores por equipamento que tenham maior eficiência energética e possam produzir não apenas para consumo próprio, mas também para vender essa energia. Ao mesmo tempo, as unidades novas já estão sendo concebidas com caldeiras com maior eficiência energética.
Quais problemas ainda precisam ser superados para que o potencial da bioeletricidade seja aproveitado? Algumas dificuldades estão sendo superadas. Nos principais locais de expansão, como Goiás e Mato Grosso do Sul, por exemplo, não se tinha rede básica para poder receber essa energia. O sistema integrado nacional começou a ser ampliado agora, de forma a receber a energia desses novos empreendedores. Outro problema está relacionado à própria remuneração, à tarifa para a biomassa. Não têm sido considerados os ganhos ambientais da cogeração no que diz respeito ao ciclo produtivo, pois a cana absorve CO2 e o etanol emite menos CO2 do que a gasolina. E se uma usina de álcool atrasa ou demora a entrar em atividade você tem uma perda muito pequena em relação a todas as outras. Há ainda a vantagem das nossas plantas estarem próximas dos centros consumidores, onde se faz uma cogeração distribuída.
E o preço pago pela energia, pode ser considerado justo? Hoje as tarifas de compra de energia na cogeração ainda são baixas, é preciso mudar algumas questões na regulação da Aneel e criar uma cultura para se ter vários leilões de energia, aproveitando os potenciais da energia da biomassa e eólica. Esses leilões deveriam ser sistematizados e anuais, não apenas ocasionais, para que o empreendedor seja estimulado a investir nesse produto. A bioeletricidade faz muita diferença no fluxo de caixa das empresas e, até 2020, pode se tornar o segundo produto do setor, atrás apenas do etanol e já à frente do açúcar.
Qual a sua avaliação dessa mobilização coordenada pela Unica, por por meio do Projeto Agora? Esse projeto faz parte de um processo iniciado desde 2007 e que visa justamente a mudança da imagem do setor, visando quebrar o preconceito que existe. Nós estamos dando um enfoque maior para o quanto o etanol pode ser benéfico nessa discussão que estamos tendo a respeito das mudanças climáticas. É um trabalho que tem um aspecto educacional e que está sendo feito pela rede pública de oito Estados, mais o Distrito Federal. Ele engloba um concurso de redação e as cartilhas onde a gente pode mostrar os ganhos que a sociedade tem com o etanol, um combustível renovável, que polui menos e tem maior eficiência energética. É um projeto de médio de longo prazo que envolve não só as entidades de representação do setor, mas também toda a cadeia produtiva. André Rocha, presidente-executivo do Sifaeg/Sifaçúcar
Fonte: Canal - Bioenergia |
| Preço Médio do kg de ATR/SP - Julho | R$ 0,3477 |
| Álcool Anidro Combustível | |
| 16/08 - 20/08/2010 - CEPEA | |
| R$ 0,9652 | US$ 0,5497 |
| Álcool Hidratado Combustível | |
| 16/08 - 20/08/2010 - CEPEA | |
| R$ 0,8359 | US$ 0,4761 |
| Álcool Hidratado Outros Fins | |
| 16/08 - 20/08/2010 - CEPEA | |
| R$ 0,861 | US$ 0,4904 |