Doença nos Canaviais
A ferrugem laranja começou a atingir os canaviais de Piracicaba, nas regiões que fazem divisa com as cidades de Iracemápolis e Capivari, segundo Enrico Arrigoni, coordenador de Pesquisa Tecnológica do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).
A doença deve atingir cerca de 11% da cana-de-açúcar plantada no Estado de São Paulo - maior produtor do Brasil, com cerca de quatro milhões de hectares cultivados, segundo o Ministério da Agricultura, Abastecimento e Pecuária (Mapa). Ela já está presente também nas regiões de Ribeirão Preto, Ourinhos e Araçatuba, conforme o CTC.
O prejuízo pode ser de 20% na produtividade e de R$ 300 milhões ao ano no país, conforme Arrigoni. O Mapa avalia que as perdas podem chegar a R$ 1 bilhão no Brasil, dependendo do grau de contaminação dos canaviais no país.
Disseminada pelo vento, a praga pode se espalhar por 600 quilômetros em uma semana, segundo Arrigoni. "O clima úmido e quente dessa época do ano favorece a proliferação do fungo", disse o pesquisador em entrevista coletiva ontem, no CTC. O fungo não atinge outras lavouras. "É uma doença específica da cana".
A primeira manifestação da doença no Brasil ocorreu em Araraquara. "A presença do fungo foi detectada no último dia 7 de dezembro". O patógeno veio da América Central, possivelmente pelas correntes de vento da Amazônia.
Na área experimental do CTC, há plantas infectadas de variedades suscetíveis e plantas resistentes, utilizadas em estudos. Arrigoni mostrou a cana afetada pela doença.
"A folha da planta contaminada começa a apresentar pústulas de ferrugem e evoluem para a necrose da folha. Isso prejudica o desenvolvimento da planta, porque impede fotossíntese, que produz o açúcar".
Os estudos do CTC identificaram duas variedades de cana mais suscetíveis à doença: a RB72454 e a SP89-1115. Há também três variedades com resistência intermediária e outras 29 resistentes. O CTC preferiu não divulgar a extensão das áreas plantadas com esses cultivares.
VARIEDADES
De acordo com o Censo Varietal, a área de plantio da variedade RB72454 nos estados de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul é de 6,2% de 3 milhões de hectares, o que equivale a 180 mil hectares. Da variedade SP89-115, o plantio é de 1,4% de 3 milhões de hectares, cerca de 42 mil hectares. A informação é do professor de melhoramento genético do Departamento de Biotecnologia Vegetal da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal de São Carlos, Antonio Ismael Bassinello.
Segundo o professor, no ano passado, nesses três estados,foi reformada uma área de 327 mil hectares e feito o plantio de 1,6% da variedade RB72454 (5.232 hectares) e de 1,3% da SP89-115 (4.251 hectares). "Considerando essa área reformada, a área com essas duas variedades é quase insignificante perto do total de variedades plantadas. Por isso, os estudos vão continuar sobre a evolução dessa doença".
Ele disse que existe a possibilidade da doença não se alastrar com a mesma velocidade que atingiu outros países. Isso porque, desde 2007, quando a doença foi detectada nos EUA e em países da América Central, foi recomendado o plantio de variedades resistentes aos produtores.
PREÇO NÃO DEVE SOFRER REAJUSTE
A doença não deve interferir no preço do açúcar e do álcool. "Estamos em uma fase de expansão do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil e como as variedades mais suscetíveis tem um plantio reduzido, o preço final desses produtos não deve ser alterado para o consumidor", afirmou Enrico Arrigoni, do CTC.
A orientação do CTC para os produtores é que eles têm de fazer uma avaliação do canavial e verificar a condição da planta. "Dependendo do grau de infestação, quanto antes o produtor decidir sobre a erradicação das variedades suscetíveis, mais rápido ele vai reduzir o potencial de perda. Há o risco do fungo sofrer mutação, como qualquer outro e atingir as variedades resistentes. Somos um centro de pesquisa e começamos a fazer estudos sobre a doença em 2000, quando o fungo atingiu os canaviais australianos. Nas próximas quatro semanas nossos técnicos estarão analisando os canaviais de todo o país para avaliar a situação", disse Tadeu Andrade, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do CTC.
Ele ressaltou que as perdas para os produtores devem ser mínimas, porque já é praxe que, em um canavial, sejam plantados no máximo 15% da área com uma mesma variedade.
Com a erradicação dos pés infectados essa doença passará a segundo plano, disse Arrigoni. "Temos doenças já instaladas no Brasil que são mais graves do que a ferrugem laranja. São o raquitismo da soqueira, que provoca a perda de 20% na produção, o carvão, mosaico e podridão abacaxi, que são extremamente prejudiciais".
O Mapa informou ontem que está em avaliação a possibilidade de liberar o uso de um defensivo agrícola para combater o patógeno transmissor da doença, a partir de fevereiro.
A ferrugem laranja é causada pelo fungo Puccinia kuehnii. "É conhecida desde 1890. Foi identificada nos canaviais da Ásia. Em 2000, atingiu a Austrália", completou Arrigoni.
NÚMERO
R$ 300 milhões deve ser a perda anual com a doença no país
Fonte: Gazeta de Piracicaba